domingo, 16 de novembro de 2025

      CLEONOR EUZÉBIO FELIPE


Em 1984, eu estava morando com minha família (mãe e irmãos), em Fortaleza. No ano anterior, havia concluído o curso de Letras, na Universidade Federal do Ceará. Era um professor de Língua Portuguesa, aguardando concurso para minha área.O problema é que não surgia por causa da política imunda cearense. Em vez de concursos para a Educação, apareciam contratos vagabundos. Professores só conseguiam contratos com ajuda de políticos. Já que eu não tinha proteção de algum político, nada conseguia. 

Um professor de História, Fernando, amigo meu, me disse que o irmão dele, residente em Brasília, era professor de Língua Portuguesa, concursado, e ganhava quase o triplo de um professor do Ceará. Fiquei feliz com essa informação. Ainda bem que Brasília escolhia professores por meio de concurso público, e não por meio de ajuda de políticos. Valorizava-se a competência, o conhecimento, o saber. Na época, eu tinha um irmão adotivo que morava em Brasília, na cidade de Taguatinga. Ele vivia sozinho. Era uma pessoa que levava uma vida bastante triste e sofrida por causa do alcoolismo. Eu não queria morar com ele, porém, não tive saída. Pedi à minha mãe que ligasse para ele a fim de me aceitar temporariamente em sua casa. Mamãe percebeu que ele não me queria lá. Mas ela insistiu até que ele concordou. E aí, no dia 12 de abril de 1984, com 27 anos de idade, entrei num ônibus, deixando Fortaleza, com destino a Brasília. 

Os cristãos pregam a existência do Céu e do Inferno. Na verdade, ambos não existem! São apenas ideias ridículas e sem amor. Pensando bem, o Céu e o Inferno existem, mas aqui, na Terra. Se uma pessoa vive feliz, ela está no Céu. Se vive uma vida infeliz, ela está no Inferno. Pois bem! Vivi com meu irmão de criação durante 2 meses e meio. Conheci o Inferno! Ele bebia álcool todos os dias. Quando voltava do trabalho, parava num boteco miserável, retornando à sua casa totalmente embriagado, gritando palavrões pela rua. Todas as noites, ligava um aparelho de som, no volume máximo, não permitindo que eu dormisse. Enfim, um verdadeiro inferno! 

Foi assim que conheci o Cleonor Euzébio Felipe, o Cléo. Ele morava numa casa, na frente da casa do meu irmão. Era divorciado e morava sozinho. E aí começou nossa amizade. Ele era policial civil. Cléo me indicou o local onde eram realizadas inscrições para concursos públicos. Fui lá e fiquei muito feliz quando vi vários concursos abertos, o que eu não via quando morava em Fortaleza. Inscrevi-me em dois deles, e fui aprovado, aguardando o chamado, isso apenas com 2 meses em Brasília. Porém, vivia muito triste convivendo com meu irmão que não me deixava dormir normalmente. E, depois de 2 meses e meio de convivência com ele, não aguentei. Mesmo contrariado, decidi, sem querer, voltar para Fortaleza. E foi aí que as portas do Céu se abriram para mim. Quando disse ao Cléo que não estava aguentando meu irmão, aquela vida infeliz, quando lhe informei que estava voltando para Fortaleza porque não tinha onde ficar, em Brasília, ele me disse:

— Não, você não vai voltar para o Ceará! Você é um rapaz inteligente, esforçado! Você tem futuro aqui, em Brasília! Faça o seguinte: pegue o que você tem que pegar e pode vir morar comigo, em minha casa! Sou divorciado, moro sozinho, e sua companhia será até agradável para mim!

Quando ouvi aquilo do Cléo, uma esperança brotou em meu jardim. Só que eu não tinha um tostão no bolso, dinheiro algum para sobreviver. Quando disse isso ao Cléo, ele falou assim:

– Não se preocupe com isso! Pode deixar comigo!

E aí fui morar com ele. Saí do Inferno de meu irmão de criação, entrando no Céu do Cléo! Eu estava muito feliz! Agora, somente agora, podia viver em paz, com tranquilidade, dormindo e comendo bem, graças ao amigo Cléo. Ele saía às 7h para trabalhar, retornando somente às 19h. Durante esse tempo, eu me agarrava aos livros. Cléo não jantava, mas, ao chegar, preparava meu jantar, insistindo para que eu comesse tudo, senão iria estragar. Além disso, era comum ele ir ao órgão responsável pelos concursos públicos a fim de saber se havia algum em andamento, e sempre havia. Cléo pagava a taxa de inscrição porque eu não tinha dinheiro. Fui aprovado em todos os concursos a que me submeti. Depois de 2 meses morando com meu amigo, fui chamado para trabalhar no Ministério do Trabalho, localizado na Esplanada dos Ministérios, ao lado do Congresso Nacional. Havia sido aprovado em concurso público realizado há 4 meses. E continuei morando com Cléo por mais 2 meses, aguardando concurso para professor, que era meu objetivo. 

Já que eu estava trabalhando, resolvi, então, morar sozinho, até mesmo para tirar o peso das costas de meu amigo. Cléo não queria que eu saísse porque meu salário ainda era pequeno. Porém, fui morar na cidade do Gama. Quando eu estava trabalhando no Ministério do Trabalho, há 6 meses, surgiu o concurso público para a Polícia Civil, cargo de Agente Penitenciário, para trabalhar na maior penitenciária do Distrito Federal, mais conhecida por Papuda. O salário era muito bom, três vezes mais do que eu estava ganhando no Ministério, e melhor que o salário dos professores. Resolvi, então, me submeter ao concurso, sendo aprovado. 3 meses depois, já estava trabalhando na penitenciária, bastante feliz. Como a remuneração era superior à de um professor e ainda eu trabalhava durante um dia e folgava dois, decidi desistir da carreira de professor. 

Cléo ficou bastante feliz quando soube que eu também agora fazia parte da família da Polícia Civil. E nossa amizade continuou a todo vapor, com minhas visitas frequentes ao seu apartamento, localizado no Guará, local onde moro hoje. Anos depois, Cléo passa a viver com Ana, gerando 3 filhos: Aline, Alice e Guilherme. Aposentado, com a família, foi morar inicialmente num sítio, em Goiás, perto da cidade de Piracanjuba. E eu, já casado, sempre ia lá, com minha família. Depois, Cléo com a família passa a morar em Hidrolândia, perto de Goiânia, e eu sempre ia visitá-los. 

Muitos anos depois, com nossa amizade sempre presente, Cléo veio a falecer, em Hidrolândia. Aline, sua filha, médica, avisou à minha esposa. Eu estava em Fortaleza. Minha esposa rapidamente pediu a um irmão que a levasse a Hidrolândia para participar do sepultamento. E assim foi feito. Atualmente, suas filhas, médicas, residem em São Paulo. Ana, viúva, e o filho Guilherme moram em Caldas Novas, Goiás. E nossa amizade continua forte, sincera e eterna. 


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