Eustáquio
O espanhol Juan Arias
(teólogo, psicólogo, filólogo, jornalista, escritor, graduado em línguas
semíticas), em seu livro “A Bíblia e seus segredos”, 2004,
editora Objetiva, na página 30, escreve:
“É
lógico, portanto, que a Bíblia apresente erros e contradições, exageros e mitos
misturados com fatos reais.”
O
que Juan Arias afirma acima é do conhecimento de quem estuda com
responsabilidade e seriedade a Bíblia. De fato, ela está repleta de lendas,
mitos, alegorias, fábulas, contradições, discrepâncias e erros das mais
variadas espécies. Neste artigo, mostraremos mais uma lenda bíblica, na
verdade, apenas um trecho de uma longa lenda bíblica: a saída do povo hebreu do
Egito. Peguemos, pois, o pequeno trecho que está no livro de Êxodo, capítulo 4,
versículo 21:
“Disse o Senhor a Moisés: Quando
voltares ao Egito, vê que faças diante de Faraó todos os milagres que te hei
posto na mão; mas eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo.”
Ao ler o
versículo bíblico acima, um bom observador verá com facilidade a ingenuidade
gritante. Nessa lenda, o Deus hebreu, criado obviamente pelo povo hebreu, tem
mais um encontro com Moisés. Enquanto os dois conversam, o povo hebreu está sob
escravidão egípcia, sob o comando do Faraó. Então, Deus diz a Moisés que vá ao
Egito, à presença do Faraó, e lhe mostre os milagres que Deus passou para o
próprio Moisés. Além disso, Deus também diz que, quando Moisés estiver diante
do Faraó, endurecerá o coração do mandante do Egito para que não deixe o povo
hebreu sair do Egito. Por favor, caro leitor, não ria porque você atrapalhará
minha concentração. Nessa lenda bíblica, logo de início, um erro do homem
antigo: o coração! Antigamente, o homem, por não conhecer ainda a função deste
órgão humano, pensava erroneamente que o coração era o órgão responsável pela
maldade, bondade, decisão, inveja, desprezo, ciúme etc. O lendário Moisés
pensava assim e o Deus hebreu também. Veja, em destaque, o que diz o Deus
hebreu em relação ao Faraó:
“(...) eu lhe
endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo.”
Como se vê, o
Deus hebreu também pensava que o coração era o órgão responsável pelas
decisões. E não poderia ser diferente porque os deuses são criados pelo homem,
recebendo, pois, seus reflexos. Para sermos mais simples, os deuses têm a cara
do povo que os cria. Depois de muitos séculos, com o avanço da medicina, é que
o homem passou a entender a real função do coração e do cérebro. O coração
perdeu aquelas características para o cérebro. O coração é apenas um músculo
que recebe e envia sangue pelas veias e artérias. Já o cérebro humano é o órgão
responsável pela maldade, bondade, decisão, inveja, desprezo, ciúme etc. Se o
escritor hebreu estivesse vivo hoje, em sua lenda, teria colocado que o Deus
hebreu haveria de endurecer o cérebro do Faraó, e não seu coração. Muito bem! Como
se trata de lenda, mais uma ingenuidade extrema: o Deus hebreu procura um homem
chamado Moisés. Um leitor cuidadoso poderia fazer as seguintes perguntas:
“Já que o Deus hebreu é onipotente,
por que ele permitiu que seu povo permanecesse sob escravidão egípcia durante
quase 5 séculos? E por que precisou da ajuda de um homem chamado Moisés?”
As
respostas são fáceis. Deus algum existe, deus algum salva povo algum.
Obviamente, um ser qualquer com poderes fenomenais não iria permitir que seu
próprio povo permanecesse escravo de outro durante um dia sequer, imagine
durante um ano, dez ou quinhentos anos. E, na lenda, o Deus hebreu recorreu a
um homem chamado Moisés porque, como não existem, os deuses nada fazem por si
sós. Os deuses sempre necessitam do homem para fazer o que eles não têm
condição de fazer sozinhos. Veja a ingenuidade da lenda. Um Deus onipotente
poderia de imediato destruir o Faraó, que era o mandante no Egito. Ele não
necessitaria da ajuda de homem algum, não é mesmo? E um leitor cuidadoso
poderia formular outra pergunta:
“Já que o Deus hebreu endureceu o
coração do Faraó para que não deixasse o povo hebreu sair do Egito, então a
culpa foi exclusiva do próprio Deus, ou seja, a responsabilidade do Faraó é
nula, não é mesmo?”
Claro que sim! Na lenda,
o Deus hebreu endureceu o coração do Faraó para que não deixasse o povo hebreu
sair do Egito. Logo, o Faraó estava inocente nessa situação. Se Deus não
tivesse endurecido o coração do Faraó, o povo hebreu teria saído do Egito na
primeira tentativa de Moisés.
Terminamos este artigo com a
repetição da afirmação de Juan Arias:
“É
lógico, portanto, que a Bíblia apresente erros e contradições, exageros e mitos
misturados com fatos reais.”
Nenhum comentário:
Postar um comentário